23 abril 2010

No Dia Internacional do Livro, José Afonso Furtado em entrevista

Licenciado em Filosofia, o autor de “O Papel e o Pixel: Do Impresso ao Digital” (2007) é director da Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian e docente no curso de Edição – Livros e Novos Suportes Digitais, na Universidade Católica.

P - Como analisa a evolução dos leitores de livros electrónicos (e-readers) nos últimos anos - são aparelhos que tendem a substituir os livros em papel ou ainda se está longe desse cenário?
R - Julgo que a evolução mais significativa consistiu no aparecimento de dispositivos utilizando as tecnologias e-paper e e-ink. É isso que marca o início da segunda geração de e-readers, depois do fracasso das primeiras tentativas em 1998/9 com o aparecimento do Rocket eBook e outros aparelhos que se lhe seguiram. Contudo, se resolveram algumas questões referentes à qualidade da tecnologia e ergonomia, continuam a subsistir uma série de questões que não facilitam a criação de um mercado expressivo (com excepção de segmentos muitos específicos, baseados em «chunked content»). Muito resumidamente: ausência de standards e portanto de soluções de interoperabilidade e compatibilidade; uma filosofia de lock-in baseada em formatos proprietários (o caso do Kindle é exemplar); insistência em mecanismos de DRM [gestão de direitos digitais] e, mais ainda, proprietários, dificultando duplamente a circulação das obras; necessidade de suporte para metadados desenvolvidos: por exemplo, o EPUB 2.0.1 não prevê soluções para articulação com standards como ONIX; ferramentas de navegação e de interactividade muito rudimentares; ausência de mecanismos que permitam conservar e reutilizar (de modo independente da obra ou não) o resultado das acções de um utilizador sobre um texto (bookmarks, anotações…); incapacidade de suportar workflow em que uma especificação como o PRISM (Publishing Requirements for Industry Standard Metadata), utilizado pela indústria das publicações periódicas para intercâmbio e arquivo de conteúdo digital ao nível da sua unidade nuclear, o artigo; carência de um suporte específico para os elementos paratextuais ligados aos textos base; por fim, como refere Joaquín Rodríguez, a resolução de algumas destas questões arrisca-se a acontecer no âmbito de linguagens e plataformas proprietárias, de integração vertical entre conteúdos, plataforma de distribuição e dispositivo de leitura, da dissolução progressiva do conceito de propriedade e de gestão da nossa memória colectiva. Mas o meu ponto principal é a dúvida persistente se, ao invés, em vez de uma solução de substituição do impresso pelo digital, não caminhamos antes para uma tendência de Gestão de Conteúdos Digitais que possibilitam estratégias de edição cross-platform e cross channel, em que o leitor decide o conteúdo a consumir e em que canal e suporte, adequada a uma época que se pode caracterizar como de “lean consumption”.

P - Acredita que estes e-readers - como dispositivo autónomo - têm futuro comercial quando surgem aparelhos como o iPad e similares (incluindo telemóveis) que integram funções de leitura electrónica de livros e oferecem ainda mais aplicações e funcionalidades?
R - Tendo a pensar que estes dispositivos dedicados poderão encontrar o seu nicho de mercado (no pressuposto de ecrãs e-paper) pois apresentam vantagens em termos de resolução e contraste e encontram-se na continuidade de uma experiência de leitura herdeira da cultura do impresso. Mas, por outro lado, este segmento poderá ter maior dificuldade em encontrar soluções para alguns dos problemas que referi acima e, sobretudo, têm sido adquiridos, segundo os dados de que disponho, pelas camadas da população usualmente classificadas como geração Baby Boomer (portanto com idades superiores a 45 anos), justamente a que tem hábitos de leitura mais fortes, maior formação escolar, maior capacidade económica e, sobretudo, que se habituou a ler em papel.
Creio que as práticas das gerações mais novas se afastam desse modelo, o que terá certamente a ver com novas configurações que surgem, neste momento de mudança de paradigma, a nível social, económico e cultural. Para Zygmunt Bauman a sociedade actual pode ser definida como uma sociedade de consumidores, já específica de um novo momento da modernidade, que designa como fase líquida. Como tenho salientado, este consumismo líquido, que engloba a velocidade, o excesso e o desperdício, caracteriza-se antes de mais por uma nova relação com o tempo, fenómeno que tem sido salientado, entre outros, por Manuel Castells, para quem vivemos uma época de aceleração da temporalidade, em que valores como a simultaneidade, a sensação do imediato, a mistura de tempos no mesmo canal de comunicação, cria uma colagem temporal ou, de outro modo, uma espécie de eterno presente que tende a elidir a história. Essa elisão da história é o contexto privilegiado de uma sociedade de hiperconsumo (o termo é de Gilles Lipovetsky), em que se salientam fenómenos como o êxtase (depressivo) da novidade perpétua, a febre do tempo curto, o zapping visual como correlato da saturação de mensagens, uma bulimia despreocupada, uma oscilação paradoxal entre a hipersensibilidade e a total insensibilidade.
Significa isto que se continua a agir segundo a lógica dos mercados de massas num momento em que emergem mercados de nicho e de subnicho, fenómenos de fragmentação generalizada, a disseminação de microculturas e novos modelos de leitor/consumidor. E como sempre, esta transição é particularmente complexa, pois o novo paradigma não substitui sem mais o anterior mas antes convive e articula-se com ele, pelo que não se pode já falar de um só mercado mas de múltiplos mercados, que tentarão dar resposta a configurações de «tribos», efémeras, voláteis, menos aglutinadas pela proximidade física e mais pela partilha de interesses.
Nesta perspectiva, creio que os aparelhos multifunção correspondem de modo mais adequado (para o melhor e para pior) ao ambiente social e cultural em que já vivemos. E, nesse sentido, alterar radicalmente aquilo que constituía o nosso legado de uma história longa do livro e que foi mencionado há bem pouco por Clément Laberge: os jovens já não compram um suporte para ler livros, compram livros que possam ler num suporte.

P - Com as novas propostas de ecrãs electrónicos maleáveis e até pequenos equipamentos de projecção 3D, consegue antecipar qual será o tipo de leitor electrónico que melhor pode servir as necessidades da população leitora em geral?
R - Da minha resposta anterior, pode deduzir-se que não creio que haja já uma população leitora em geral. A tendência é para a compra de fragmentos (chunks) de informação. O conteúdo tente a tornar-se cada vez mais discreto e os utilizadores querem apenas a informação de que necessitam, numa filosofia de acesso cada vez mais rápido e cada vez mais permanente e de qualquer local e não bits desnecessários (o que corresponde a um modelo de crescente mobilidade social quer em termos de profissionais quer no modo como vivem o quotidiano). No fundo, lidamos cada vez mais com conteúdo desagregável, granular, o que permite ao consumidor final adquirir apenas parte de um livro ou uma música de um disco (modelo iPod).
Obviamente que, mesmo neste cenário, haverá diversos tipos de leitores e diversos tipos de leitura. E, naturalmente, atributos tecnológicos poderosos em alguns domínios podem representar debilidades noutros O que pode ser interessante na estratégia de gestão de conteúdos digitais, ágeis, baseados em formatos neutros numa perspectiva «Media Neutral In – Media Neutral Out», é justamente a capacidade dos produtores de conteúdos deixarem de pensar na edição como um fenómeno único e passar a trabalhar com nichos de mercado, adequando-se a um leitor volátil, e fornecendo a informação requerida no suporte adequado.

P - Quais são as vantagens do livro em papel perante o formato electrónico?
Todas as características que ao longo de quase cinco séculos o transformaram num objecto perfeito para os seus fins: ainda há bem pouco o insuspeito Terje Hillesund escrevia que «there are two major challenges for long–form text transference. The first is to replicate conditions for continuous imaginary reading, and the second to create favourable conditions for sustained reflective reading. Whatever the solutions, digital text will under no circumstances be the same as printed text and, in relation to reading experiences; it will never be more than a question of proximity».
Antes de mais, deve sublinhar-se a emergência de uma realidade absolutamente nova e da maior importância para a nossa relação com os livros. Na verdade, apenas com os textos digitais os livros se deparam, pela primeira vez, com questões que sempre foram familiares para os editores de música e de vídeo. Ora, a mediação tecnológica é basicamente estranha ao mundo do livro: na nossa tradição cultural, o livro é um objecto persistente, imediatamente visível, folheável fácil de emprestar, ao qual se retorna no decurso do tempo. A simplicidade do seu manuseamento, essa relação directa e física com o «objecto livro» – incluindo no plano das posturas corporais – são aspectos postos agora em questão com os novos dispositivos de leitura. O impresso tem historicamente uma vida muito longa por ter usufruído de uma ausência única de mediação tecnológica e por ser um dos mais antigos media, certamente o medium mais antigo em termos de produção e comercialização em massa. O papel – pelo menos o papel bem feito – dura muito tempo. Estas propriedades estão estreitamente relacionadas com a função e estatuto únicos dos livros, e por isso sempre se considerou que a sua conservação deve ser garantida. Por outro lado, a leitura em papel é uma prática estabilizada e um acto complexo que se elabora a vários níveis; o do reconhecimento dos signos, o da percepção ortográfica e da sua tradição fonética em palavras, o da sintaxe, o da identificação do sentido ao nível da frase e do texto. Daqui resultam informações ou conhecimentos que são produzidos pelo sujeito em interacção com um suporte textual, graças a uma mobilização dos seus conhecimentos prévios e em função dos objectivos que pretende num determinado contexto.
Por outro lado, as opiniões opostas sobre a fixidez dos documentos e a fluidez da informação provocam uma tensão que é inerente aos documentos convencionais e que, de um modo academicamente adequado, o sociólogo francês Bruno Latour designa de «immutable mobiles» Assim, uma das características dos documentos em papel é a sua mobilidade, a sua capacidade de circular, ao contrário, por exemplo, das paredes das cavernas em que a humanidade deixou as suas marcas muito antes do aparecimento do papel. A outra, é a sua imutabilidade. Temos a expectativa de que o livro se mova sem alterações de modo a que, quando chegar ao leitor, seja o mesmo do que quando saiu do editor. O facto de, neste momento, os materiais digitais serem muito pouco permanentes é cada vez mais encarado como um problema: na verdade, o sucesso de qualquer género, ou de uma determinada instância de qualquer género, está ligado ao padrão ou ritmo de fixidez e de fluidez: qual a informação que se mantém fixa, quando pode ser alterada e por quem.
Por fim, assistimos a uma verdadeira fusão da mensagem e dos dispositivos em que, mais ainda, não cessam de surgir novos géneros textuais, literários e documentais, e se assiste a uma progressiva indistinção de fronteiras entre várias actividades cognitivas outrora distintas: a pesquisa de informação, a consulta, a análise e toda a sorte de leituras, de escrita e de comunicação. Assim, mensagens, materialidade e funcionalidades fundem-se em novas realidades, que é cada vez mais difícil qualificar a partir dos critérios e determinações tradicionais.
As novas materialidades que suportam a escrita não anunciam o fim do livro ou a morte do leitor. Existe, existirá como sempre, escreveu Jacques Derrida, «coexistência e sobrevivência estrutural de modelos passados no momento em que a génese faz surgir novas possibilidades». Mas essas novas materialidades pressupõem que os papéis vão ser redistribuídos, e que, em conclusão, se trata de reconhecer que é uma nova economia que se estabelece. Uma nova economia que «faz coexistir de um modo dinâmico uma multiplicidade de modelos, de modos de arquivo e de acumulação. E que isso é, desde sempre, a história do livro».


As hiperligações são da responsabilidade do autor do blogue. A ler também:
"Tendência é para compra de fragmentos de informação" (excertos editados desta entrevista)
Uma década de livros electrónicos em Portugal
Dia Internacional do Livro

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